FALTAM PESQUISAS EM TECNOLOGIA DO AMBIENTE CONSTRUÍDO
Publicado em 27 julho de 2010

Às vésperas do encontro que será promovido pela Associação Nacional de Tecnologia do Ambiente Construído (Antac), o presidente da entidade, Francisco Ferreira Cardoso, fala sobre a redução de pesquisas em tecnologia para este setor e a crescente internacionalização da indústria de materiais. E defende a aproximação entre o governo, o mercado e a área acadêmica.

ed62-ent-francisco-ferreira-inicioNo próximo mês de outubro, entre os dias 6 e 8, a cidade de Canela, no Rio Grande do Sul, reunirá um grupo seleto de pesquisadores que apresentarão, no total, 933 trabalhos sobre a temática do ambiente construído. Na pauta do 13º Encontro Nacional de Tecnologia do Ambiente Construído (Entac) estará presente a discussão sobre a política de ciência e tecnologia, mas haverá também espaço para uma autocrítica sobre a produção de conhecimento na área. Engenheiro civil e professor titular do Departamento de Engenharia de Construção Civil da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, o presidente da Antac, Francisco Ferreira Cardoso, afirma que nesse contexto um fato o preocupa. Trata-se da redução de pesquisas sobre temas voltados para a tecnologia dos sistemas dos processos construtivos, como o reaproveitamento de resíduos, materiais de construção, sistemas construtivos e prediais. Esses temas precisam de laboratórios e de maior infraestrutura para serem pesquisados. “Por isso perdem espaço para outros, voltados aos estudos de pesquisa de campo, por exemplo”, afirma ele nesta entrevista a Gilmara Gelinski.

Quando foi o primeiro entac? Por que ele surgiu?
O primeiro Entac aconteceu na década de 1980. O primeiro de que eu participei foi em 1993, aqui na Poli. Ele foi criado para ser o que é até hoje: um fórum científico de apresentação e discussão das pesquisas nas diversas áreas do conhecimento relacionadas à tecnologia do ambiente construído.

Como era a situação do meio acadêmico e do mercado naquela época?
O meio acadêmico na época era bem menor. Os programas de pós-graduação na área do ambiente construído cresceram muito. Existiam alguns centros de pesquisas que trabalhavam no assunto. Nós tínhamos três polos: a Politécnica, a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e o IPT [Instituto de Pesquisas Tecnológicas], a Escola de Engenharia da Universidade Federal de São Carlos e a Unicamp [Universidade Estadual de Campinas] começando em algumas áreas com trabalhos intensificados. Também havia polos no Rio Grande do Sul, no Rio de Janeiro, pesquisadores isolados na Bahia, em Minas Gerais.

Atualmente, como estão os programas de pós-graduação na área do ambiente construído?
Hoje, a área do ambiente construído, se ainda não é forte como a gente gostaria que fosse, é bem mais forte do que há 20 anos. Há mais de 50 volumes de pós-graduação. Na engenharia civil, são cerca de 40 pesquisas relacionadas à tecnologia do meio ambiente construído, e pouco mais de dez são realizadas pelas escolas de arquitetura. Nas escolas de arquitetura o meio ambiente construído é uma das áreas, além do urbanismo e história da arte, que são temas que não estão ligados à Antac.

Quais os focos dessa área?
O ambiente construído é o resultado das transformações da sociedade e do ambiente natural. Isso inclui os edifícios, as intervenções na natureza urbana. Estradas e pontes também são interferências no ambiente construído. Nós temos uma tradição de trabalhar mais com os edifícios e nas áreas urbanas. Além do ponto de vista econômico, é importante porque é o nosso dia a dia. A indústria da construção como um todo representa cerca de 14% da economia. Só a atividade de construção é 10% da economia. O Brasil é um país excessivamente urbano. Apenas cerca de 7% dos brasileiros não passam quase o dia todo em ambientes fechados. Então a pesquisa tem desafios ligados à habitação e aos edifícios não habitacionais relacionados a questões de energia e de economia de água.

Qual o papel da Antac?
A Antac promove dois tipos de encontro. O Entac é o grande encontro brasileiro, que acontece a cada dois anos. Então os pesquisadores de todas as áreas relacionadas ao meio ambiente construído convergem para ele. E nos outros anos ocorre o encontro dos grupos de trabalhos sobre os temas específicos. Eles têm objetivos de certa forma diferentes, mas sempre com o intuito de expor aos meios acadêmico e profissional o resultado da pesquisa, colher subsídios para esta e fazer uma reflexão sobre o sistema de pesquisa.

O que mudou nesse período?
Surgiram novos temas. Em primeiro lugar, houve uma tentativa de trazer pessoas não acadêmicas para o encontro, que passa a ter um efeito local, pois há procura profissional. Essa ligação com o meio profissional é bastante incentivada. E existe o efeito nacional para os pesquisadores que convergem em seus trabalhos. Depois da dinâmica do encontro em si, em decorrência sobretudo do crescimento do número de inscritos, o que mudou foi a temática. Infelizmente, houve uma alteração que não considero boa: a diminuição de uma importância relativa dos temas mais ligados à tecnologia dos sistemas de processos construtivos. Embora, este ano, o número seja razoável: estamos com 42 artigos aceitos.

Por que houve essa redução nos temas de tecnologia?
São temas que precisam ter uma estrutura maior para serem pesquisados. Precisa haver laboratório, o que neste segmento de pós-graduação é mais difícil. Não digo que não tenha, mas é mais difícil. Então, há mais facilidade para os temas com mais estudo de pesquisa de campo, de pesquisa de revisão bibliográfica, com entrevistas. Os temas ligados a materiais de construção, reaproveitamento de resíduos, sistemas construtivos e sistemas prediais, que são fortes, precisam de infraestrutura maior.

Então é a falta de investimento que inibe as pesquisas nas áreas de tecnologia?
Não é só isso. Além de investimento maior, existe o fator da pesquisa no exterior, que trabalha pouco com essa questão. Lá fora se trabalha mais com a gestão. E vários professores ao longo dos anos se formaram no exterior e trouxeram uma bagagem que privilegia os temas dos centros em que eles atuaram. Menos que a diminuição das pesquisas nas áreas tecnológicas, houve um aumento nos outros temas. Se somarmos os temas mais tecnológicos, temos o reaproveitamento de resíduos com 60 trabalhos, materiais de construção com 49, sistema de processo construtivo com 42, tecnologia de sistemas prediais com 17. A soma desses temas fica um pouco abaixo dos 20% do total de trabalhos aprovados.

O setor privado desenvolve pesquisa nas áreas tecnológicas?

Eu teria vontade dizer que existe essa pesquisa no setor privado. Mas não é verdade. É muito pouco. A indústria de materiais sempre fez e continua desenvolvendo novos produtos. Mas com a internacionalização crescente da indústria de materiais, o que tem acontecido é que muitas pesquisas são feitas fora do país. E nas obras há poucas pesquisas por parte das construtoras.

Quais são as temáticas que mais se destacam no encontro?
Para este ano, o tema com maior número de resumos aceitos - 20% - foi conforto ambiental e eficiência enérgica. Depois vem a sustentabilidade. Essas temáticas ganharam uma importância muito grande e cresceram bastante. O terceiro maior tema está ligado à economia e à gestão da produção. A dimensão econômica e a questão gerencial também são muito fortes.

Como é a relação dos estudos do brasil com os de outros países?
Depende muito do tema. Sobre alguns temas conversamos muito com o exterior, porque as problemáticas são parecidas. Outros, como os ligados aos processos construtivos, são importantes para o Brasil mas não tanto para o exterior. A interação com os principais centros universitários estrangeiros é bastante razoável, principalmente com os Estados Unidos e Europa. Com os centros latino-americanos isso ocorre menos do que gostaríamos.

Como está o desenvolvimento aqui no brasil?
Não existe o alinhamento da academia ou do setor privado com temas definidos e pactuados conjuntamente e que tivessem sido levados para os estudos de fomento pelo Ministério da Ciência e Tecnologia através da Finep [Financiadora de Estudos e Projetos], ou pelas fundações de amparo à pesquisas nos estados. Eu acho que esse é o grande problema. Na verdade, falta uma política de ciência, tecnologia e inovação consensual no setor. Não havendo essa política, o que ocorre é um descolamento entre o que os pesquisadores estão fazendo e o que de fato seria mais interessante para o desenvolvimento do tema no país.

Existem iniciativas para melhorar essa realidade?
Para ajudar a resolver esse problema, uma iniciativa importante foi a FINEP criar no último edital de pesquisa o Programa Habitare, de 2006. Foi um conselho de rede de pesquisa, que agora voltou num edital que está sendo discutido. O projeto já está fechado, mas precisa ser alinhado. Então essas redes de pesquisa permitem alinhar os trabalhos dos centros de pós-graduação e de pesquisas nacionais. Na hora que ocorre o alinhamento, cria-se sinergia entre os grupos e evita-se a repetição de temas, acontece a troca de experiências metodológicas e de resultados. Enfim, é vantagem para todo mundo. O segundo movimento, que a Antac está liderando junto com o setor produtivo, é iniciar uma discussão que leve à formação de uma política de ciência e tecnologia do setor. Esse é um dos temas dos painéis do Entac. Em maio, será feito, em parceria com a Câmara Brasileira da Indústria da Construção, um evento fechado, para o qual foram convidados representantes da academia dos principais centros de pesquisa, da cadeia produtiva e de órgãos federais – o Ministério da Ciência e Tecnologia, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior e o Ministério das Cidades. Este último por ser nosso objeto de investigação.

O que se pretende com essas medidas?
Com isso pretendemos aumentar as ações, pois tudo que se faz ainda é menos do que se deveria fazer. O tema ambiente construído está muito aquém da importância econômica e social que sabemos que ele tem. Há um gargalo muito grande. O desafio de construir o país, sanar o déficit habitacional e infraestrutura passa pela pesquisa tecnológica e pesquisa de gestão.

Por isso a proposta do entac 2010 é debater a avaliação da produção do conhecimento na área de tecnologia do ambiente construído?
Esse tema está alinhado com tudo que eu já coloquei. O nosso momento, do ponto de vista da academia, é fazer uma autoavaliação, uma autocrítica. Por isso um dos painéis é exatamente voltado à avaliação. Quer dizer, estamos sendo corretamente avaliados? Sabemos se o que estamos pesquisando é o que realmente interessa para o país? Estamos indo bem ou não? Para onde devemos caminhar? Como se avalia o programa? Temos duas avaliações no país: uma individual, dos professores, e outra que é a da Capes [Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior], ligada aos programas de pós-graduação. Não temos indicadores do impacto das nossas pesquisas no setor produtivo, na sociedade. Em paralelo, haverá outro painel sobre a política de ciência e tecnologia.

Como seriam medidos o impacto e o retorno das pesquisas?
A ideia é começar a discutir isso nesse painel. Certamente o retorno acadêmico são as publicações, os números de citações da publicação, que são indicadores numéricos. Depois a gente tem que medir como é o impacto do ponto vista econômico, social e ambiental. Mas não é simples, porque não estamos falando de um tema específico, estamos falando de uma área inteira, com temas passando por conforto, eficiência energética, tecnologia da informação e comunicação, patologias e durabilidade das construções. O indicador tradicional da medição são as patentes, que espelham o poder e o valor da pesquisa científica no mercado. Mas nem todos os assuntos se adaptam ao mecanismo de patentes. E outra dificuldade é cruzar as questões social, econômica e ambiental. Eu poderia falar de outros indicadores ligados à política pública. Vários desses trabalhos sobre esses temas e diversos centros de pesquisas estão preocupados com isso. Não só na indústria, mas dentro da ação do governo em todos os níveis. Como essas pesquisas influenciam a criação de uma legislação municipal, nas questões, por exemplo, do coletor solar, economia de água ou de uma regulamentação ligada a canteiros de obra? Então o impacto ligado à política pública, que é muito importante para nós, também deveria ser medido.

Quais as temáticas que são consideradas dentro desse grande tema “ambiente construído”?

No total são 13 temáticas e 933 trabalhos: conforto ambiental e eficiência energética, com 228 trabalhos; gestão e economia da construção, 139; sustentabilidade, 124; desempenho e avaliação pós-ocupação das edificações, 91; qualidade do projeto, 67; reaproveitamento de resíduos na construção, 60; engenharia urbana e gestão habitacional, 50; tecnologia dos materiais de construção, 49; tecnologia dos sistemas e processos construtivos, 42; patologia e durabilidade das construções, 29; inovação tecnológica e modernização industrial, 22; tecnologia de sistemas prediais, 17; tecnologia da informação e comunicação, 15.

As temáticas são sempre as mesmas?
As temáticas são ajustadas. Procuram ser as mesmas, mas com a evolução dos temas algumas acabam se fundido. Só para lembrar, engenharia urbana e gestão habitacional anteriormente se chamavam desenvolvimento urbano.

Quais os avanços científicos que ocorreram nos últimos anos?
Em conforto ambiental e eficiência enérgica existem muitos. A questão do conforto e do desempenho independente da eficiência energética com uma nova norma técnica, por exemplo, que obriga os edifícios a terem desempenho mínimo ligado ao conforto acústico, térmico, além de outros critérios ligados a durabilidade, segurança estrutural, segurança ao fogo. Isso mostra a importância desse tema, que se confirma pelo número de trabalhos apresentados. A questão de eficiência enérgica tem um desenvolvimento muito grande. Temos os coletores solares, a própria arquitetura pensando em soluções de forte interface com outras áreas, como a biologia. O tema da gestão e economia da construção já passou por vários momentos, entre eles o da qualidade, e hoje está preocupado com a medida de custo, orçamento, avaliações precisas, pois o desafio é construir muito barato. Inovação tecnológica e modernização industrial é o tema em que alguns centros de pesquisa têm uma relação muito forte não só com a política pública, mas também com a política do setor. A academia esteve e continua muito próxima da formulação brasileira de programas de qualidade e produtividade. Programas do Habitat, do Ministério das Cidades, o programa Qualihab, da Secretaria da Habitação, o selo Procel de avaliação energético, a FDE que trabalha com a construção da escola sustentável, a Caixa Econômica Federal promovendo o selo Casa Azul.

Que impactos estes avanços promoveram no mercado?
Para construir rápido e barato na área habitacional, as empresas estão experimentando na obra, porque nem mesmo as grandes construtoras, salvo algumas exceções, têm uma linha forte na área de desenvolvimento tecnológico. Então, elas também não fazem tecnologia, são feitos experimentos. Copia-se muito dos outros países, compra-se o sistema construtivo e aplica-se aqui. Não há uma área de desenvolvimento ou mesmo de avaliação crítica do que está sendo feito. É um receio da academia, num modo geral, de que estão se criando bombas com efeitos retardados. O que acontecerá com essas construções daqui a cinco, dez anos? Elas terão a durabilidade que se espera? Terão o conforto que se quer? E o pior é que esses experimentos estão sendo feitos com uma população menos favorecida.

Como os profissionais que atuam na área de construção civil, arquitetura e habitação podem recorrer à produção acadêmica para sua aplicação no mercado?
A Antac está preocupada com isso, e criou junto com os parceiros uma base de informação chamada Infohab, financiada pela Finep. Essa base traz grande parte da pesquisa nacional ligada à habitação. A Capes também tem uma política muito forte e boa em relação a disponibilizar ao meio acadêmico a pesquisa de ponta no mundo. O meio acadêmico tem acesso livre, já as empresas não têm acesso gratuito, precisam pagar por essas informações. Um dos instrumentos fortes é o chamado índice de citação de pesquisas. É importante tomar cuidado com as informações encontradas pela internet.

As universidades participam das discussões que vêm ocorrendo no mercado? De que forma?
Falar em universidade é um pouco abstrato. Em um extremo está a universidade, no outro os professores e os pesquisadores das universidades e no meio encontram-se os programas de pós-graduação e os departamentos, entre esses dois há os grupos de pesquisa. Mas normalmente são os professores, via entidades como a Antac, que fazem acontecer essas redes.

Essa participação é satisfatória ou poderia ser diferente? Como?
Ainda não é satisfatória. É preciso ter mais pesquisadores participando, por exemplo, dos encontros. É importante haver mais contato, mais ligação dos pesquisadores, mais interação da indústria com as pesquisas. Na universidade do Ceará existe um centro de pesquisa que já está fazendo seu oitavo encontro para expor pesquisas, com a participação de pessoas de fora. Aqui em São Paulo temos ligação com a indústria de material de construção. Estamos articulando também uma ligação com a Anfacer [Associação Nacional dos Fabricantes de Cerâmica para Revestimento] e já temos ligação há alguns anos com a Abramat [Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção]. Mas é preciso uma aproximação maior entre governo, mercado e academia para termos uma sinergia maior.

Quais são as perspectivas do Entac 2010?
A primeira perspectiva era termos muitos trabalhos. Conseguimos selecionar 933. Esperamos que os pesquisadores se inscrevam, participem do encontro e assistam às apresentações de temas diferentes dos de seus trabalhos. Vamos ter dois painéis sobre avaliação e sobre a política de ciência e tecnologia. Esperamos a participação de profissionais da área. O Entac é um grande evento

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