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A GESTÃO SUSTENTÁVEL É UM BOM NEGÓCIO Publicado em 29 de junho de 2010
Sócio diretor da Monteiro Associados Consultoria Empresarial, Luiz Eduardo Neves Loureiro faz um alerta aos empresários: a implantação de práticas sustentáveis na gestão das empresas é um processo irreversível e quem não se preparar estará condenado a ficar para trás. Ele defende a ideia de que estratégias sustentáveis podem diminuir custos e racionalizar o uso de materiais, garantindo a existência do negócio.
A partir da ideia de que o meio ambiente é o maior gerador de insumos para as indústrias e preservá-lo é uma questão de inteligência, o empresariado precisa enxergar fora da caixa do mercado e criar produtos diferenciados. É o que afirma o consultor Luiz Eduardo Neves Loureiro, citando como exemplo os edifícios certificados pelo Leadership in Energy and Environmental Design (Leed), cujos custos de produção - 5% acima dos prédios convencionais - vêm caindo ano a ano. Nesta entrevista concedida a Gisele Cichinelli, Loureiro fala sobre liderança, gestão e sustentabilidade como pontos estratégicos das organizações para que elas se adaptem às novas exigências do mercado, com foco na indústria da construção civil.
Quais são os desafios para implantar o conceito de sustentabilidade corporativa dentro das empresas? O grande erro dos executivos é relegar a sustentabilidade a um departamento isolado. Costumo dizer que ela tem nome e endereço, ou seja, fica a cargo de uma pessoa, em um departamento específico da empresa. O conceito de sustentabilidade, como acreditamos, deve ser inserido dentro do planejamento estratégico. No caso específico da construção civil, recomendaria que as empresas identificassem os temas estratégicos para o setor e buscassem materializar as soluções de problemas como a reciclagem do entulho e os processos de gestão desses materiais, o consumo de energia, a poluição gerada pelo transporte de materiais, entre outros tantos ligados ao setor. É preciso identificar esses pontos e trabalhar em cima de alternativas efetivas para solucioná-los ao longo de todo o processo de produção.
Como as empresas podem implantar o planejamento estratégico sustentável nas suas gestões? A implantação do planejamento estratégico sustentável acontece através da simplificação dos processos. A princípio, é importante mostrar as possibilidades de redução de custos no curto prazo para, no longo prazo, implantar, efetivamente, uma mudança de cultura dentro da empresa. Ao tentar convencer um executivo a adotar o conceito de sustentabilidade corporativa, que será introjetado em toda a companhia, é importante começar do básico, ou seja, revelando de forma bem clara quais serão os resultados financeiros obtidos no processo. Na construção civil, por exemplo, em que a rotatividade de operários é elevadíssima, é preciso mostrar ao empresário como se pode lidar com isso e até mesmo evitar que ocorra, reduzindo custos imediatos. Essas e outras questões podem ser solucionadas pela implantação de um planejamento estratégico sustentável.
A possibilidade de obtenção de lucro deve ficar sempre muito visível para o empresário? Sim, é importante mostrar o lucro que ele terá com a adoção de práticas sustentáveis. E os stake holders [empresas e pessoas não envolvidas diretamente com a companhia, como investidores, fornecedores etc.] devem ser vistos não como concorrentes, clientes ou funcionários, mas como integrantes de uma rede que se complementam em vários aspectos. É preciso que o empresariado comece a enxergar fora da caixa do mercado e crie produtos diferenciados. Um bom exemplo disso são os edifícios verdes certificados pelo Leed, cujos custos de produção - 5% acima dos prédios convencionais - vêm caindo ano a ano, sobretudo por causa do aumento de oferta de tecnologias específicas para a construção desses empreendimentos.
Por falar em edifícios verdes, o braço ambiental da sustentabilidade corporativa ainda tem mais apelo que os braços econômico e social? Tentamos desvincular a sustentabilidade do aspecto ambiental. Até porque o foco nessa questão gera certo comodismo dentro das empresas, que acreditam que, por estarem cumprindo as leis ambientais a que está sujeito seu negócio, são sustentáveis. A sustentabilidade deve contemplar de forma ampla os aspectos ambiental, econômico e social. Aliás, cabe ressaltar que o desenvolvimento de pessoas é o grande difusor dos outros dois conceitos ligados à sustentabilidade. Se as pessoas não estiverem engajadas e comprometidas com práticas sustentáveis, dificilmente haverá preocupação com o meio ambiente ou com o lucro dentro das empresas. Em qualquer circunstância, as pessoas são o foco principal.
As empresas, de modo geral, estão tendo essa percepção? Em primeiro lugar, as empresas são movidas pelas exigências do mercado. Por exemplo, no caso da construção civil, hoje em dia soa bem trabalhar em um escritório verde. Então há demanda por esse tipo de empreendimento. Em segundo lugar, há o caminho inverso. Usa-se a sustentabilidade como um apelo de marketing para atrair o consumidor. Por último, há as exigências legais e regulatórias, ligadas ao meio ambiente. Sem dúvida, ainda há muito que fazer nessa área e as empresas têm reagido mais a essas questões legais. Talvez venha daí a percepção de que o meio ambiente figura mais na pauta da sustentabilidade do que os fatores econômico e social.
O meio ambiente e o lucro rápido estão pautando essa agenda? As empresas que fazem sustentabilidade verdadeiramente focam muito nas pessoas e priorizam o lucro. É ele que dará continuidade ao processo. Sem resultado, não há sustentabilidade. Por isso o desenvolvimento das lideranças é muito valorizado nas empresas, pelo poder de mobilização que exercem. Cada vez mais é preciso preparar e capacitar - do ponto de vista comportamental, e não necessariamente técnico - líderes aptos a agir de forma sustentável.
E como o conceito de responsabilidade social empresarial, o braço social da sustentabilidade, tem sido absorvido nas empresas? De modo geral, os executivos pensam que responsabilidade social empresarial se resume a ajudar uma creche ou a estimular o trabalho voluntário dentro da companhia. Isso é uma forma de se isentar da questão. Pregamos o bem-estar social de dentro para fora, a partir do bem-estar do próprio funcionário. Em todos os níveis da empresa existem necessidades, anseios pessoais e projetos de vida. Se ela conseguir unir seus valores corporativos aos valores pessoais dos seus funcionários, há um ganho enorme em produtividade e satisfação.
Nesse sentido, como anda a construção civil? o setor registra um dos maiores índices de mão de obra informal, com cerca de 50% dos operários trabalhando dessa maneira. Algumas grandes construtoras acabam repassando parte do trabalho de contratação para empresas constituídas de forma irregular. E todo mundo finge que não vê. Uma das competências do líder sustentável é a abertura para questionar o que está errado, até mesmo a falta de inclusão social. Por que o contratante ainda emprega informalmente? O problema de conscientização é amplo. Normalmente, quem contrata esse tipo de mão de obra é o proprietário do imóvel, o arquiteto responsável ou ainda a construtora, que terceiriza de modo irresponsável. Não dá para resolver o problema de uma vez, numa só canetada. Minha maior crítica recai sobre aquele que procura a mão de obra mais barata a fim de explorá-la. Resolver isso no curto prazo é uma questão importante para o setor. Mas a solução exigirá uma mudança na cultura de contratação.
Grandes empresas do setor que abrem seu capital e, consequentemente, têm de prestar contas aos seus acionistas podem contribuir positivamente com esse processo de mudança cultural?
Sem dúvida, com várias empresas abrindo capital surge uma exigência maior para coibir a informalidade. Mas é necessário que haja ações mais firmes dos sindicatos e do governo nesse sentido. Também é importante garantir que o mesmo ocorra dentro dos fornecedores. O setor da construção civil interliga-se com muitos outros. No Green Building Council, por exemplo, sentam ao redor da mesma mesa os presidentes das associações de aço, de piso, de concreto etc. O setor tem esse poder de abranger diversos outros. E estes não fazem apenas produtos para a construção. Dá para imaginar o poder de ramificação que a adoção dessas práticas pode gerar na sociedade. É preciso pensar no processo de modo sistêmico, e não linear. Uma ação tomada em determinado momento impactará todo o processo e o resultado final.
Os empresários têm essa visão sistêmica? A relação do empresário com a sustentabilidade é de amor e de ódio. Ele sabe que precisa agir nesse sentido, mas, por outro lado, tem sempre em mente a necessidade de lucro pontual. Isso faz parte da cultura corporativa ocidental.
De que maneira essa equação está sendo resolvida na prática? Já há empresas que vinculam o bônus a projetos de médio e longo prazo, incluindo ações inovadoras, que gerem produtos ou serviços no futuro, por exemplo. Algumas até já dedicam 20% de seu tempo a investimento em inovação e criatividade, conceitos estritamente relacionados à sustentabilidade. Afinal, o que existe hoje comprovadamente não deu certo. Sustentabilidade, no final das contas, é simplificar as ações. Na medida em que os acionistas começam a perceber os seus benefícios, dão espaço aos executivos para que implantem esses conceitos dentro das empresas. Os céticos, aqueles que não acreditam nos resultados das práticas sustentáveis, vão ficar para trás.
Quais são, efetivamente, os benefícios da adoção de práticas sustentáveis para o negócio? Um dos grandes benefícios alcançados pela adoção de ações de responsabilidade social dentro das empresas é o aumento de produtividade dos funcionários. Aumentando a produtividade, aumenta a satisfação e, consequentemente, a fluência do negócio, a inclusão de novos consumidores e de novos profissionais no mercado de trabalho que estarão aptos a consumir. Enfim, gera-se consumo saudável, inclusão na educação, estabilização de famílias e comunidades etc. Do ponto de vista econômico, o empresário ganha consumidores. Quanto ao aspecto ambiental, vale lembrar que o meio ambiente é o maior gerador de insumos para as indústrias. Portanto, preservá-lo é uma questão de inteligência. Pensar em estratégias sustentáveis diminui custos e racionaliza o uso de materiais, garantindo a existência do negócio. O acionista, a sociedade e o meio ambiente só têm a ganhar. Alguns ganham no curto prazo e outros no longo prazo, mas os ganhos são sentidos em todas as esferas sociais.
Se os resultados são tão bons, por que alguns empresários ainda têm essa relação de amor e ódio com a sustentabilidade corporativa? Um dos motivos é a falta de tempo para parar e pensar sobre sustentabilidade dentro das empresas. O que acontece, em geral, é que as consultorias de sustentabilidade eram criadas e administradas por pessoas provenientes dos movimentos sociais ou ligados à ecoeficiência, que entendem muito dessa área, mas desconhecem os processos e estratégias empresariais. Isso acabou gerando certa resistência do empresariado com relação ao assunto. Poucos ainda conseguem mostrar aos empresários o pragmatismo do negócio, ou seja, que é possível ganhar dinheiro, reduzir custos e desperdícios, ser reconhecido pelo mercado, criar produtos, aumentar o nível de inovação tecnológica desses produtos etc. Quando mostramos que isso também é sustentabilidade, o empresariado se mostra aberto para adotar esse conceito.
Por onde começar a implantação dessa estratégia dentro das empresas? Quando apresentamos esses benefícios de forma pragmática, as perguntas que logo surgem são: quem vai implantar tudo isso dentro da minha empresa? Quem vai fazer isso acontecer e de quem depende que isso aconteça? A resposta é: depende de uma pessoa que tenha uma visão de negócio e de mundo diferente da convencional. Nós, da Monteiro Associados, desenvolvemos um conceito de liderança sustentável que pressupõe o uso de oito competências. A partir disso, criamos uma metodologia para qualificar esse líder.
É o pessoal que já faz parte das empresas que se capacita nesse treinamento? quem são essas pessoas? Entramos nas empresas por três caminhos: pelo alto executivo, pelo gestor de sustentabilidade ou pelo gestor de RH. Quando entramos pela área de sustentabilidade, essa figura irá determinar se o processo será inserido na empresa pelo setor de gestão ou pelo RH. Se for pelo RH, entramos diretamente pelo processo de desenvolvimento padrão da empresa. O mais comum é que a empresa tenha um programa de desenvolvimento de lideranças sustentáveis em andamento, com competências já previamente definidas na sua visão estratégica, na qual vamos inserir nossas características.
Esses líderes sustentáveis já existem ou estamos vivenciando uma fase de formação dessas lideranças? Existem pessoas com comportamentos bastante próximos dos demandados para a formação de um líder sustentável. O fundamental é a intenção. Nossa cultura corporativa é muito forte e, por isso, os processos de mudança são dolorosos. Trabalhamos o processo de mudança do modelo mental, um dos mais difíceis de mexer, pois envolve convicções arraigadas do ser humano. Usamos um procedimento no qual é necessário que o interessado se permita ter novas sensações e experiências. Para que essas competências sejam usadas é obrigatório que o empresário sinta que são necessárias e que observe onde podem se aplicar verdadeiramente. Ele deve pensar, sentir e agir. Usamos métodos de vivência e sensibilizações sobre problemas ou sobre grandes sucessos na área de sustentabilidade. O objetivo é que o participante se sinta como uma parte do processo.
O empresariado ligado à construção civil já percebeu a importância de adotar a prática da sustentabilidade corporativa? Depois da crise, a tendência do empresariado é esquecer o vendaval. Aconteceu isso com os setores automotivo e financeiro. Depois de uma ligeira normalização, tudo voltou ao que era antes. O setor imobiliário, depois de aquecer novamente, abandonou a lição de casa. A mentalidade é produzir rápido para aproveitar esse boom. |